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Governo quer ampliar participação de micro e pequenas empresas nos negócios da Copa e Olimpíada

Uma delegação comandada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic) esteve na Alemanha, onde ocorreu a Copa do Mundo de 2006, e em Londres, que se prepara para sediar os Jogos Olímpicos de 2012, para conhecer as soluções adotadas pelos dois países em relação aos eventos esportivos. A intenção é não só buscar o que há de mais moderno em tecnologias que possam ser trazidas para o Brasil – que sediará os mesmos eventos em 2014 e 2016 –, mas também buscar formas de ampliar a participação das empresas de micro e pequeno porte nas duas ocasiões. "Para se ter uma ideia, o governo londrino estima que 30% dos negócios já fechados tenham vindo de micro e pequenas empresas", diz Marcos Vinícius de Souza, diretor de fomento da inovação da Secretaria de Inovação do Mdic, e coordenador do projeto.

No Brasil, isso significaria abocanhar uma fatia de um montante impressionante. Segundo estudos do governo, a Copa deve injetar na economia, até 2014, R$ 47,5 bilhões apenas em investimentos diretos – ou seja, aqueles referentes à infraestrutura esportiva e urbana diretamente ligada aos jogos. Se 30% disso, como foi em Londres, chegar às pequenas e médias empresas, seriam R$ 14 bilhões: é sete vezes mais do que os cerca de R$ 2 bilhões que estas empresas arrecadam com exportações ao ano.

Pequenas Empresas & Grandes Negócios entrevistou o diretor do Mdic. Veja os principais trechos:

O que está sendo feito para aumentar a participação das micro e pequenas empresas nos negócios da Copa e da Olimpíada?
Nós (do Mdic) coordenamos uma câmara setorial dentro do Ministério dos Esportes voltada para a promoção comercial e tecnológica na Copa e na Olimpíada. Nossos obejtivos são dois: um é desenvolver estratégias de tecnologias da informação e da comunicação, no Brasil, para estes grandes eventos. O outro é criar políticas públicas para que as micro e pequenas empresas consigam aproveitar as oportunidades que os eventos trarão, e consigam se promover no exterior a partir disso.

Qual a importância de estimular a participação destas empresas?
Qualquer empresa quer participar de um evento destes. Nós mesmos recebemos diversas ligações, do mundo inteiro, de empresas pedindo informações, ou querendo oferecer um serviço. Mas elas muitas vezes não sabem como participar, então temos que encontrar os meios de proporcionar isso e ajudá-las a estarem preparadas. Será um momento em que os olhos do mundo inteiro estarão voltados para cá. É uma enorme oportunidade de fazer com que nossos setores sejam vistos por outros países, desde o turismo e o comércio, até produtos como cosméticos, cachaça, açaí, que o estrangeiro irá conhecer e querer que tenha em seu país também. E, se em um momento como este, a empresa não oferecer um bom serviço, ela não vai ter outra oportunidade depois.

Como isso está sendo feito?
Estamos trabalhando junto a entidades de classe e representantes da iniciativa privada. Há duas semanas, organizamos uma missão para conhecer as políticas feitas na Alemanha e na Inglaterra, e que possam servir de exemplo ao Brasil. Estiveram presentes integrantes de diferentes ministérios e do setor privado, como a CNI (Confederação Nacional da Indústria), a Anprotec (Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores), a Anpei (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras) e a Protec (Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica). A intenção é mesmo ter este desenho tanto governamental quanto privado.

Que projetos podem ser replicados no Brasil?
Em Londres vimos uma iniciativa que entusiasmou toda a comissão. Chama-se Compete For. É uma espécie de site de compras, como um Mercado Livre, mas voltado exclusivamente para os negócios oficiais das Olimpíadas de 2012. Neste site, as grandes empresas responsáveis pelas obras, vencedoras das licitações do governo – o que aqui no Brasil seria uma Camargo Corrêa, uma Andrade Gutierrez – anunciam as oportunidades de negócios que têm, quando precisam subcontratar algum serviço. Surgem coisas que vão desde a necessidade de uma empresa que desenvolva um software até um serviço de jardinagem ou a contratação de uma barraca de sorvete. Elas listam todos os critérios de que precisam, e qualquer empresa, de qualquer lugar, pode se cadastrar e participar da seleção.

Isso será feito no Brasil?
Toda a delegação considerou uma ideia de altíssimo potencial para nós. Para se ter uma ideia, o governo londrino estima que 30% dos negócios fechados neste site tenham sido com micro e pequenas empresas. E é uma coisa gigantesca: eles estimam que, até a Olimpíada, no ano que vem, terão sido 50 mil negociações e cerca de 1 bilhão de libras (ou R$ 2,5 bilhões). Aqui, temos que ver agora como será feito. E não só para a Copa, mas também para as Olimpíadas e para outros eventos de grande porte, como o Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, que será em 2012 na capital fluminense).

Que resultados vocês puderam notar nestes outros países-sede?
Em Londres isso ainda está em processo, porque as Olimpíadas serão no ano que vem, mas na Alemanha, que sediou a Copa em 2006, o que vimos foi um grande desenvolvimento das empresas que se envolveram na organização. E, além de a maior parte ter sido feita por empresas do próprio país, o país se tornou referência. Eles forneceram tecnologia para a África do Sul (que sediou a Copa de 2010), estão oferecendo para o Brasil e mesmo para a Inglaterra. Foi o que fizeram: preparam suas empresas, fizeram um bom trabalho e agora estão se promovendo a partir da repercussão que ganharam.

Mas um país como a Alemanha, ou a Inglaterra, já é consolidado como referência em tecnologia, e já possui uma economia preparada. Um país como o Brasil é capaz de ter a mesma repercussão?
É sim. Um bom exemplo para isso é a África do Sul, que se aproxima mais da nossa realidade. Estivemos lá na semana passada, a convite do governo sul africano, justamente para ver como estavam as coisas passado um ano da Copa. Lá houve um desenvolvimento impressionante. Hoje, a África do Sul compete inclusive com a Alemanha e a Inglaterra, e está também oferecendo tecnologias para o Brasil.

E como estão as coisas lá passado um ano da Copa?
Vimos exemplos dos dois lados. Há as arenas que estão ociosas e apenas dando custos de manutenção, mas há também as que se tornaram auto-suficientes e geram grandes lucros. Isso reflete o modelo escolhido para cada uma. A Soccer City, por exemplo, um dos maiores estádios, em Johanesburgo, está bem ociosa, e é seu modelo que estimula isso: não há lojas no seu entorno. Foi feita só para jogos. Já o estádio de Durban, considerado o melhor da Copa de 2010, é totalmente diferente: dentro dele há 17 lojas, um ótimo restaurante, salas para conferência, uma academia – a maior da África do Sul. Foi feito também um bondinho panorâmico que passa por cima do estádio e um bungee jump para pular dentro do campo. Tem jogos e mais de 300 eventos já marcados até o final do ano. Não fica parado um dia.

Juliana Elias

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