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Sites de compras coletivas invadem a rede

Os sites de compras coletivas viraram mania. Oferecem benefícios para fornecedores e consumidores, mas exigem planejamento. As empresas parceiras precisam se preparar para dar conta da alta demanda gerada pelos preços atrativos

Em menos de um ano eles proliferaram. Poucos meses após o surgimento do primeiro site de compras coletivas no Brasil, são mais de 500 endereços eletrônicos. O modelo traz benefícios a todas as partes envolvidas: sites, consumidores e empresas parceiras. Para os clientes, as vantagens dos sites de compras coletivas são facilmente identificadas: reduções de preços que chegam a 90% e ofertas compradas por centenas ou até milhares de consumidores. É a oportunidade de conhecer lugares diferentes e adquirir produtos e serviços por valores bem abaixo dos de mercado. Os portais arrecadam uma parcela do valor anunciado. No caso Peixe Urbano, líder no segmento no Brasil, a cada oferta vendida, o site fica com R$ 1,50.

Para as empresas parceiras, entretanto, o resultado não é tão visível, mas tem sido bastante reconhecido por quem adere. O restaurante Vila Madalena, por exemplo, realiza sua quinta promoção por sites do gênero, já pensando na próxima.

O proprietário Glauco Godoi enxerga o modelo como uma ferramenta de marketing capaz de agregar valor ao negócio. "As ofertas são oportunidade para que um público diferente venha nos conhecer. Se estivermos preparados para atendê-lo com qualidade, teremos um bom retorno", defende.

Em março do ano passado, quando começaram a operar, os sites de compras coletivas precisavam fazer grandes esforços para buscar parcerias como essa. Hoje, o Peixe Urbano recebe centenas de cadastros de interessados por dia, segundo sua diretora Letícia Leite. Ela explica que o risco baixo para os estabelecimentos ajudou a expansão do modelo. "No início era difícil explicar como funcionava, mas depois o retorno passou a ser facilmente percebido", diz.

Segundo Sérgio Oliveira, sócio do site CityBest, os estabelecimentos ainda têm acesso a uma base de consumidores interessados em seu negócios de forma instantânea. "Este não é um benefício tão óbvio, mas é uma ferramenta de marketing muito barata se comparada aos meios tradicionais de divulgação", reforça.

A visibilidade por um grande número de consumidores tem sido de fato o principal benefício para os parceiros. O restaurante Baalbeck, que realizou promoção há três meses pelo site Groupon, ainda colhe resultados das mais de 1,4 mil vendas realizadas. "O retorno tem sido muito bom, apesar de o restaurante já ter 30 anos e ser bastante reconhecido. Muitos clientes antigos voltaram e novos nos conheceram, consideramos isso muito positivo", explica o gerente Marcos Silva.

Não foi preciso nenhuma alteração no atendimento do restaurante, apesar da concentração do maior movimento nas primeiras semanas. O motivo foi a escolha de pratos de fácil fabricação para participar da oferta, segundo Silva. "Já estamos acostumados com uma grande demanda, então levamos com tranquilidade este volume de vendas", diz.

Planejamento é fundamental para atender ao aumento da demanda

É preciso ter bom planejamento e orientação para conseguir aproveitar a oportunidade sem perdas. Para a última promoção realizada pelo Vila Madalena, ainda no ar pelo Groupon, o estabelecimento investiu na contratação de cinco funcionários e na compra de novos equipamentos e embalagens. Até agora, entretanto, os resultados não têm sido tão bons quanto os das últimas ofertas. "Chegamos à conclusão de que a promoção, um combinado de sushi para quatro pessoas, mesmo com desconto, possui um valor elevado para a média das ofertas oferecidas pelos sites", diz o proprietário Glauco Godoi.

Para Cíntia Gaspari, proprietária da estética Via Belle, a venda de 1.716 cupons pelo Peixe Urbano para o serviço de bambuterapia foi uma surpresa. "Quando vimos, a promoção estava no ar com limite de dois mil cupons, não tínhamos capacidade e planejamento para atender a essa demanda", conta.

A empresária se diz insatisfeita com a forma como foi conduzida a promoção, especialmente pela falta de informações durante a negociação com o site. "Fizemos a oferta com 80% de desconto, isso significa que no momento estamos tendo prejuízo para cumprir este valor", afirma.

Até agora foram utilizados apenas 60 cupons do total comercializado no início de janeiro. Para atender a essa capacidade, houve a necessidade de contratar mais duas funcionárias e há previsão de que mais uma integre o quadro no próximo mês.

Para Cíntia, que buscou o site com objetivo de divulgar seu negócio, ainda não se pode medir o resultado da ação. "Estou dividida. Por um lado tenho pessoas conhecendo a estética e requisitando outros serviços além da bambuterapia, mas por outro preciso abrir mão de atender clientes antigos que pagam o valor integral em função da nova demanda", relata.

Para Godoi, que já realizou ofertas pelo Peixe Urbano e pelo Groupon, ainda falta preparo no atendimento oferecido pelos sites. "O pós-venda deles é muito fraco, pois não têm poder de resolver problemas. Mas ainda assim é um investimento favorável pela facilidade de divulgação", afirma.

Por este motivo, os sites de compras coletivas agora têm mostrado preocupação em preparar os parceiros, além de simplesmente fechar negócio. "O atendimento à demanda é uma preocupação bastante séria, às vezes são comércios pequenos, sem estrutura para atender a um volume tão grande. Esclarecemos que é possível limitar o número de cupons e explicamos que cerca de 30% do total vendido é utilizado nas duas primeiras semanas", explica Sérgio Oliveira, sócio do CityBest.

A orientação mais importante, de acordo com a diretora do Peixe Urbano Letícia Leite, é de que o estabelecimento deve oferecer excelência no atendimento aos clientes. "O objetivo é justamente fidelizar o consumidor. A vantagem é que o número de cupons vendidos pode ser acompanhado em tempo real. Assim, as empresas podem se preparar para a demanda, verificando questões como estoque, planejamento e funcionários", orienta.

De compradores a vendedores

A primeira compra de Daison Santolin foi justamente a primeira oferta promovida pelo Peixe Urbano em Porto Alegre, um jantar em um restaurante havaiano. Mesmo sem ainda ter usado este cupom, o administrador tornou-se um usuário frequente de sites de compras coletivas desde então – hoje ele tem mais de 10 cupons aguardando a utilização. A maioria é de ofertas ligadas à gastronomia, cuja compra é motivada pelo fato de morar sozinho.

Santolin, entretanto, já percebeu que a quantidade de sites de compras disponíveis é um apelo ao consumismo. "Fico feliz quando as promoções são voltadas ao público feminino, pois sei que não irei gastar", brinca. Ele acompanha as oportunidades diariamente por meio do site Save-me, que reúne os principais sites de compras da cidade.

Para o administrador, o modelo é um benefício, especialmente pela oportunidade de comprar produtos e serviços de estabelecimentos que já frequentava. As experiências em locais diferentes, entretanto, o fizeram ficar mais cauteloso. "Uma vez comprei banho e tosa para o meu cachorro em uma pet shop que não conhecia, o resultado não foi bom e tive que gastar mais do que o esperado. A partir de então fiquei mais cuidadoso ao comprar", explica.

Planejamento é outro fator que deve ser considerado, pois a maioria das ofertas tem restrições ao uso, como agendamento prévio ou utilização dos cupons em dias e horários específicos. "Não dá para decidir usar em cima da hora, um clareamento dental que comprei em outubro estou utilizando apenas agora", conta.

Já o casal Paola Macchi e Paulo Junior Kendzerski começou a utilizar o serviço em agosto de 2010 e, desde então, realizou pelo menos uma compra por semana, especialmente de ofertas da área de gastronomia. Como já costumavam frequentar restaurantes, o novo hábito de compra representou economia. "Antes saíamos para jantar toda semana pelo valor normal dos estabelecimentos, agora gastamos no mínimo a metade. Com certeza já economizamos mais de R$ 1 mil", afirma Paola.

Eles acompanham as ofertas diariamente pela internet e pelo celular, levando em consideração a indicação dos amigos para garantir a qualidade e boa procedência do que compram. Entre os benefícios que mais valorizam está a possibilidade de reunir amigos e familiares sem se preocupar com o valor da conta.

Mas a experiência que Paola e Kendzerski adquiriram como compradores trouxe mais do que economia. Hoje eles são proprietários do próprio site de compras coletivas, o Ofertas na Internet, no ar desde o dia 25. A ideia vem sendo desenvolvida há dois anos, com a popularização do modelo nos Estados Unidos. A percepção que eles possuem como usuários foi utilizada para aprimoramento do modelo, com novas ferramentas como aplicativo mobile, para recebimento de ofertas pelo celular. Com este diferencial, eles pretendem estar entre os 50 maiores sites do Brasil em três meses. "Esperamos faturamento de R$ 1 milhão no primeiro semestre e nos próximos 6 meses nossa meta é estarmos em ao menos 15 cidades do Brasil, com escritório e setor comercial ativo em cada uma delas", revela Kendzerski.

Todos ganham, mas nem todos sobrevivem à concorrência

O modelo de negócio que inicialmente era visto com estranheza conquista novos cadastrados a cada oferta divulgada e se afirma como novo hábito de consumo, fato comprovado pela quantidade de sites existentes no País. O Brasil é ambiente propício para este desenvolvimento, de acordo com a diretora do Peixe Urbano Letícia Leite. "Somos um povo muito social, ligado na internet, que compartilha novidades e usa muito redes sociais. Somado a isso, temos o aquecimento da economia, com aumento do poder de compra e do acesso à web", explica.

Apenas em Porto Alegre, existem pelo menos quatro novos sites operando nas últimas semanas. O CityBest, apesar de ser um dos primeiros no mercado nacional e ter participação em 17 cidades, é novato na Capital gaúcha. A cidade representa boas expectativas em relação a vendas e qualidade dos parceiros, segundo Sérgio Oliveira, sócio-fundador do site. "Porto Alegre possui grande potencial devido ao poder de compra de seus moradores, além de ter bons estabelecimentos em diversos segmentos", explica. Por enquanto a equipe na Capital é formada por quatro colaboradores, pessoas que conhecem bem a cidade e seu perfil de negócios.

Já o Peixe Urbano, líder no segmento, deve chegar a 60 cidades brasileiras neste ano - atualmente são 35. Em 2010 foram mais de 2 milhões de cupons vendidos, 15% deles a partir de dezembro, quando as compras passaram a poder ser parceladas sem a cobrança de juros.

O Google também deve começar a atuar no segmento em breve. Após a recusa de venda do Groupon, principal site de compras dos Estados Unidos, a empresa passou a investir no Google Offers, que está em fase de testes. A ferramenta terá como objetivo a indicação de estabelecimentos e será complementada por outros serviços do Google, como o Google Maps e o Google Checkout, sistema de processamento online de pagamentos.

Diante deste panorama, a expectativa é de que haja uma estabilização do crescimento. "Em 2011 vai haver uma seleção natural no mercado de sites de compras coletivas. Hoje existe um número incrível, mas muito deles são pequenos e regionais, poucos têm abrangência nacional e estrutura para expansão", defende Letícia.

Para Oliveira, as pessoas levarão em conta a confiabilidade dos sites. "Tem muita gente fazendo isso, inclusive com amadorismo. Com o tempo, consumidores e empreendedores vão começar a diferenciar em quais podem confiar, como em qualquer mercado", diz. Neste momento, serão valorizados aqueles sites que souberem oferecer o que os parceiros procuram, como maior número de cadastrados e maior possibilidade de fidelização.

Outra tendência é a segmentação dos sites de acordo com públicos e produtos específicos. Já existem portais voltados para os setores de gastronomia, turismo e infantil. Criado este mês, o Oferta Chique é destinado exclusivamente ao público feminino. As operações começaram em Porto Alegre no dia 17 e a intenção é expandir para outras cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná ainda em março, segundo um de seus sócios, Thiago Dalmas. "O site é uma aposta em um nicho de mercado, pois com o crescimento de ofertas é preciso focar em um público específico como diferencial", defende.

Dalmas e seu sócio, Ricardo Jaques, fizeram uma análise do mercado durante oito meses para definir como seria a abordagem do site. A equipe comercial que hoje dedica suas ações na expansão para a Grande Porto Alegre, por exemplo, é formada preferencialmente por mulheres, chamadas de consultoras. "Elas sabem o que é mais desejado e mais interessante para o nosso público e o principal retorno que oferecemos às empresas é justamente a divulgação direcionada a este perfil", justifica Dalmas.

Nos primeiros quatro dias de operação, o Oferta Chique teve 17 mil visualizações de página, com cadastro de 33% deste total para recebimento das promoções por e-mail, considerado um bom resultado para seus sócios.

Luciane Costa

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